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Sketch Stories

Alemanha

Bremen – 7 Junho 2012

O tempo está nublado e faço-me acompanhar do guarda-chuva. Desde que entrei nos países-baixos que nunca sei quando posso desenhar na rua. Entro na cidade por uma das pontes com vista para as torres da catedral de telhados verde seco. Sigo pela zona nova e a chuva começa. Instantaneamente procuro um lugar de abrigo para desenhar. Ao meu lado direito está uma loja de doces feitos à mão, Bremen Bonbon Manufaktur. Um lugar bastante visitado pelos turistas e perfeito para se passar um bocado a desenhar. Não pelos turistas, mas porque estava debaixo de uma arcada e ai não chovia. Não me recordo se alguma vez vi como se fazem doces, por isso, achei que valia a pena assistir. As grande janelas são uma tentação para os mais curiosos que não hesitam em disparar um par de fotografias. «Deve ser complicado trabalharem e haver sempre alguém a espreitar o que fazem.» oiço eu, de um turista. «Se forem como eu, é, provavelmente, a parte melhor do dia delas.» Digo eu.

Na ampla praça principal, que dá acesso à majestosa catedral de duas torres, existe um edifício central, novamente, com umas arcadas. A maldita chuva não me dá tréguas e dali, sai mais um desenho. Desde que entrei na Alemanha tem-se tornado cada vez mais complicado perceber o que as pessoas locais dizem. Mas dizem, no jeito e língua que sabem, com a mesma energia e interesse. A barreira do idioma ultrapassa-se mais facilmente quando mostro os desenhos anteriores. Percebem melhor o que ando a fazer sem grandes explicações. Acabo por ver com mais atenção as reacções e não me desdobro tanto em explicações.

Bremen

Finalmente, a chuva deixa-me em paz e o sol espreita timidamente. Altura perfeita para conhecer a zona histórica. Puxo do banco, que anda sempre comigo, e …

…acompanha o resto da história e sketches na revista Visão Vida e Viagens de Agosto!

Hamburg

Hamburgo – 10 Junho 2012

São duas da tarde e não há grande movimento na rua. O céu está coberto de nuvens e a espaços lá aparece o sol. Estão dois sem abrigo, a dormir na escada onde estou sentado, à minha esquerda. Começa a chover e um deles acorda, mas mal consegue abrir os olhos. Mastiga em seco. Pega num pacote de sumo e leva-o à boca. Mais desperto, levanta-se e dirige-se, em passos irregulares, a um caixote do lixo que está a uns 5 metros. Ali foi a sua casa-de-banho. Regressa para continuar o que estava a fazer.

Passam turistas, alheios a isto. Tiram fotografias às silhuetas dos Beatles. Colocam-se em poses, abraçados aos ídolos. Nesta rua vende-se amor a horas impróprias. A prostituição está em cada esquina, em cada discoteca, em cada bar ou casa de alterne. Mas ainda são só duas da tarde, os néons, que abrem portas à volúpia divina, ainda estão apagados. Mas elas andam ai, já dizia o outro. Uma asiática, ensopada em vinho, fila-me e, fogosa, entra em acção. Risse por tudo e por nada, porque não sabe falar inglês e a bebedeira é mais que muita. Quando se ri, os olhos fecham-se e regala, de orelha a orelha, os dentes. Naquela boca só nasceram metade dos dentes de uma dentição normal de um adulto. Entre eles, existe espaço suficiente, para colocar outros. Avança com afinco e esforça-se por me desconcentrar do desenho. Saltam gafanhotos enquanto fala. Colada a mim, o ar que respiro tem um sabor a vinho verde. A chuva era menos perigosa e incomodativa. Vai-me tocando no braço, que seguro as aguarelas, sussurrando palavras conduzidas pelo álcool. O «amor» está ali ao alcance de qualquer carteira e fantasia. Numa luta entre caçador e pássaro que foge às balas, a asiática percebe que não estou para ai virado. Desiste, mas antes de ir, sem rumo, beija-me o pescoço e aponta para um lado qualquer. Não fui. A asiática não deu luta e foi demasiado oferecida. Só por isso…

 

Flensburg – 11 Junho 2012

Depois da tempestade vem a bonança, ou seja, depois da suja e agitada cidade de Hamburgo, chego à pacata e limpa cidade de Flensburgo. Entardece devagar, porque onde estou a luz dura até às 23h, algo invulgar e fantástico. Procuro saber onde é o centro da cidade junto de uma rapariga que passa por mim. Marlin, explica-me: «Tudo por aqui é perto. Existe a rua principal que é bonita, mas agora está tudo fechado. Ao fundo há um largo onde está a igreja. Aí perto tens uma das ruas mais antigas de Flensburgo. Já agora, de onde é que és?» «Sou de Portugal, Lisboa.» «Incrível! Acabei de saber que fui aceite para ir acabar o meu curso em Portugal e a agora conheço um português. Queres que te mostre e bebemos algo num café…?» sai-me um sorriso parvo e um sim.

Seguimos. Marlin, entusiasmada, continua a falar da cidade. Eu, escuto e contemplo a sua presença numa cidade nova. Marlin tem um olhar meigo e um sorriso cativante que oferece em cada final de frase. Tem cabelo castanho escuro com tons claros, apanhado por um elástico. É descontraída e bem-disposta. Gosta de kite-surf e pretende aprender quando estiver em Portugal. Pratica andebol há alguns anos, mas considera-se uma jogadora regular. Gosta e sabe cantar, apesar de não a ter escutado. Continuamos juntos por mais uma hora e tal. Durante esse tempo falamos do que ando a fazer, de como é Portugal e como foi bom conhecermo-nos. Despedimo-nos, porque está na hora, mas a vontade de a ver amanhã é mais que muita e trocamos contactos.

No dia seguinte, o sol brilha e faz soltar as… (parte da história e sketches na Visão Vida e Viagens de Agosto)

Flensburg

Contudo, se já tinha tudo para me ir embora satisfeito, Flensburgo ainda não acabaria aqui. Havia tempo ainda para passar o ultimo resto do dia com a Marlin. Após um curto passeio por outras zonas da cidade, sentamo-nos num banco junto à marina e espreguiçamo-nos a conversar. Foi rápido demais porque soube bem e não dei pelo tempo passar. Dissemos definitivamente «até já» e desligamos o olhar. O olhar que se prenderá a Flensburgo sempre que me lembrar da minha passagem por aqui.

Já longe e à distancia, trocamos mensagens pela internet. Confirmamos a falta de um abraço que ambos queríamos ter dado e nenhum tomou a iniciativa de oferecer. Não há uma sem duas, nem duas sem… parar de ser parvo e oferecer o que sinto.

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