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Ali! É Ali que quero fazer um desenho!

Portugal, Porto de Gala – 16 Março 2012

Quase a chegar à Figueira da Foz, vejo um porto piscatório e digo automaticamente: “Ali! É Ali que quero fazer um desenho!” O dia estava meio cinzento. Corria uma brisa fresca que me fazia pensar que estava melhor num lugar mais quentinho, mas lá segui à procura de uma perspectiva interessante enquanto, inconscientemente, esfregava as mãos para mante-las quentes. Por ali haviam casas de apoio para os pescadores e pescadores na sua rotina diária a trabalhar.

Ainda estava eu a desarrumar o banco que me acompanha para todo o lado, já sentia os olhos curiosos dos vários pescadores, que normalmente só esperam a companhia das gaivotas e ventos frescos de maresia, tentando perceber o que estaria a preparar. Assim que começo a rabiscar aumenta a curiosidade e em pouco tempo chegam-se dois velhotes para verem mais de perto. Como se nada fosse e já um pouco habituado aos olhos atrevidos de quem passa, continuo calmamente o desenho. Assim que os mais destemidos perceberam o que se passava, quebrou-se o silêncio com as primeiras palavras para os outros pescadores que não saíram da sua zona de conforto: “está a desenhar!”.

O alerta estava dado. Olho para o pescador e sorrio. Ele aproximar-se cada vez mais e consigo descortinar um rosto cauteloso e apreciador de olhar silencioso. Naquele momento tive o pensamento de que se há quem conheça como ninguém as linhas dos barcos a milhas de distancia serão os pescadores, por isso a visita não deve ser muito demorada. Rapidamente encontrará um defeito qualquer e perde o interesse. Redondamente enganado. Diz-me um deles: “Então vais dar a volta ao mundo a desenhar e tiveste tempo para vir aqui desenhar!” …pimba vai buscar! E agora como é que te safas desta Luís?! Com o maior ar de espanto e à procura de alguma coisa para dizer: “É verdade! como é que sabe?!” pergunto, “Vi-te na SIC. Mas toma cuidado que o mundo é complicado.” diz ele, “sim claro, olho vivo e cautela é sempre importante”, respondo. Pareceu-me mais um daqueles conselhos de sabedoria popular, mas depressa mudei de opinião assim que ele diz: “Tu não sabes mas eu já percorri meio mundo a trabalhar em embarcações. Por isso sei do que falo. Já perdi a conta dos países que visitei… foram 30 anos em viagens de 6 meses para a America, África, Norte da Europa…”, “pois estou a ver, mas gostava da vida que levava, não tem saudades?” pergunto. “Tenho muitas, mas estou bem como estou agora. Foram os melhores anos da minha vida, tive oportunidade para conhecer uma realidade que de outra forma não teria sido possível.” respondeu-me. “Então e diga-me lá, é verdade que também tinha uma mulher em cada porto à sua espera?” pergunto eu à espera uma história de amor perdida pelas distancias. “Óh rapaz isso são tudo miragens! As coisas não são bem assim e eu cá nunca fui de andar nessas aventuras, preferia conhecer os países e aprender as suas culturas”. A conversa continuou viva por mais uns minutos. Falámos de como se gere a ausência e as saudades, do que se aprende e como se fica “rico” interiormente quando se viaja. Já nas despedidas descubro que afinal o desenho era “um retrato fiel do que estava ali”.

Arrumei a mochila, despedi-me do sábio pescador e agradeci a sua companhia. A viagem continua. Vamos ao próximo!

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7 Comments

  1. Encantada! tal como a aguarela! E sim, tem cuidado! Mas aproveita ao máximo e acima de tudo VIVE! Acho que a maior riqueza desta vida é fazer o que se gosta… Nem sempre é possível e muitas vezes somos limitados pelo decorrer da própria vida mas contra isso nada a fazer. Agora, quando é possível e se faz por isso, enriquece-se a vida e se partilhas, como fazes, enriqueces o mundo… Sempre com cuidado… 🙂 !

  2. Além dos bons desenhos ainda nos premeias com belos textos?
    Que bom…
    Ah! e não esqueças os conselhos do pescador. Ele sabe do que fala.

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