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As primeiras conversas

Tenho tido conversas com poucas pessoas sobre o projecto. Primeiro porque quero manter a concentração no que tenho para organizar antes de me meter a caminho. Segundo porque quero que o tempo amadureça tudo em lume brando com a devida chama.

Quando me perguntam: então que projecto é esse que me falaste?!

E eu digo que vou dar a volta ao mundo com cadernos debaixo do braço a desenhar! A resposta é imediata “és louco!”. Depois vêm as perguntas frequentes, a que países vais? como arranjaste dinheiro? como consegues deixar tudo para trás? durante quanto tempo?

Sei que é bastante ambicioso querer ir a tantos países com um orçamento reduzido. Mas quando penso nisso, acaba por ter um efeito perverso e a pergunta muda-se, até onde é que eu consigo ir com meia dúzia de tostões e dezenas sítios para visitar!? Pergunta tal que não respondo de uma só vez. Deixo várias respostas em aberto e com várias soluções. Convicto que não vou viajar à patrão nem que vou ficar em sítios de luxo, não me assusta. Procuro, isso sim, uma relação de proximidade com as pessoas locais, conhecer de perto como vivem, o que as faz sentirem-se felizes, encher-me de culturas, de outras vidas, que definitivamente não passam por Carnaxide e só me apetece saltar na próxima paragem e seguir o meu próprio combóio. Louco… seria sentir isto tudo e não tentar nada para mudar.

Mas como?

Claro que isto implica muitas coisas entre as quais o certo pelo incerto. Confesso que é o que me assusta menos. Assusta-me muito mais quem cá fica. Os meus pais, irmão, sobrinha, afilhada, primos, tios, avós, amigos… Não dá para dizer por ordem ou por gostos. Todos são importantes quando nos preenchem de forma positiva.

Aqui há uns dias, uma amiga minha perguntou-me como é que os meus pais tinham reagido?

O meu pai revoltou-se. Achou que o projecto não tinha sentido nenhum para o filho dele. Apesar de na altura também eu ter reagido muito em choque, percebo que tornar-me mochileiro viajante a desenhar sem nada em concreto, não seja nada do que ele esperava de um filho com 32 anos com um emprego estável nos dias que correm. Mas não esperava que lhe afectasse tanto o que para já, ainda só está em projecto.

A minha mãe, pouco disse. Sente-se muito triste desde o dia que soube e parece que se vem a despedir aos poucos de mim. Isto a mim custa-me muito e deixa-me com as energias em baixo. Apesar do choque inicial que tudo isto possa causar, sei que nunca vou ter os meus pais do meu lado. Sei que só com algo concreto é que os fazia mudar de ideias em relação a tudo isto. Mas esse peso não posso ter às costas. Aquilo que posso garantir é que estarei atento às oportunidades que surgirem durante o percurso.

O que se aprende quando nos atiramos de cabeça?

Uma coisa fez-me perceber que, mesmo sem os meus pais do meu lado, se isto fosse mais bem aceite e digo isto referindo-me ao optimismo não gerado, custaria menos a todos e esta má imagem de perda ou sofrimento que se fica, por certo passaria. Seria pior pensar que nunca mais iria ver alguém que estaria no seu fim de vida, e mesmo assim, não acho que nos momentos terminais dessa vivência tivessem que ser dolorosos. Sempre achei que uma imagem perdura no tempo, então que sejam as boas.

Lamento que ao não estarem do meu lado, mas sim ao meu lado, que aceitação aconteça apenas com o conformismo mutuo que eu impus com o meu querer. Não gosto disso. Não é justo nem saudável para ambos. Mas os pais serão sempre pais e os filhos, filhos e estaremos cá todos para contar como foi no fim.

Vai dai…

Gosto de pensar que se isto tudo vai acabar da mesma forma para todos, então que sejamos felizes a fazer o que mais gostamos nos vários momentos da nossa vida.

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