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Lembras-te avô?

Se me perguntares de onde vem esta coisa do desenho, direi que vem de ti, Avô. 
Sim, de ti. Dos tempos em que foste desenhista de peças de barcos, talvez seja daí Avô…
Se não vejamos, na família não houve ninguém ligado ao desenho como tu, pelo menos que eu me lembre e saiba!
Quer dizer o meu Pai rabisca umas coisas, mas não fez vida como tu.
Recordas-te como eu te escutava, bastante curioso e de olhos espertos, quando me explicavas o que por lá fazias?!
Imaginava-te sempre de volta dos estiradores, folhas enormes, esquadros e compassos!
Chegaste-me a dar a tua caixa preta com compassos e tudo!!
Fiquei tão contente… pensei logo que ia ser um desenhador e pêras, porque já tenha a “ferramenta”!
Como tu, claro.
Ainda hoje a guardo.
Ainda lhe dei algum uso na escola, não penses o contrário! Em especial o afia mines. Fazia um brilharete com esse afia que tu nem imaginas… e já foi na faculdade.
Pois era, nessa altura faziam-se coisas para durar e boas.
Hoje, já não serve para nada, mas por mais que digas para mandar fora, não o vou fazer.
Tem um significado muito especial, Avô.
Já viste que até tem uma etiqueta colada à mão por ti com o teu nome!
…não, não, não sejas teimoso, deste-me aquilo e agora será estimado por mim.
Lembras-te de teres sempre várias canetas todas alinhadas na mesa da sala mais um pequeno bloco para escreveres os teus apontamentos?
…exacto!! O relógio casio também! O que eu adorava o relógio. Mas mexer nele tinha que ser às escondidas!!
Dava sempre dois “bip-bip” à hora certa e volta e meia disparava o alarme.
Para mim aquele relógio tinha tantas funções quantas tinha uma maquina de calcular.

E o quintal? Ina o tempo que passei no quintal… autenticas sessões de trabalhos manuais que eu fazia ali.
Perdia horas lá… até de noite chegava a estar a serrar madeira no torno!
Mas era ferramenta à séria, serrote, martelo e pregos!
Adorava a casa das ferramentas.
Fiz uma tabela de basket, uma suposta guitarra com cordas de fio de pesca que dava som e tudo, uns matraquilhos e mais um par de coisas que já não me recordo.
E os pêssegos que comemos da arvore do quintal? Eram tão bons!!
Ainda chegaste a ter umas galinhas, mas depois ficava o chão todo sujo e desististe não foi?
Sim é verdade, fui eu que enchi a casa da Rosalina com canudos de revista…
Então, o que é que queres, não tinha nada mais divertido para fazer, comecei a fazer pontaria para acertar na janela dela!
E olha que se falhei uns 10 canudos fui muito!
Também era do rés-do-chão para um primeiro andar.
Mas deixa lá que depois quando chegaste deste-me cá um raspanete, cuidado! Tu e a mãe!!
Mas também não valia de muito, eu não sabia estar quieto.
As horas que eu passei a jogar spectrum na mesa da sala e da cozinha.
E a avó a fazer os trabalhos de costuras?
Era uma máquina… ainda é!!
Apesar de a idade não a deixar mexer na singer, ainda há bem pouco tempo fez os vestidos de carnaval para as bisnetas.

Lembras-te de almoçarmos religiosamente todos juntos durante a semana?
Quer dizer, todos juntos não, da familia éramos eu, tu, a avó, a mãe e o pai.
Nunca podia faltar pão na mesa e uma “pinguinha” de vinho.
Ah claro e começarmos o almoço às 13h para ver o telejornal. Na altura só havia o canal 1 e 2.
E depois claro, no final um café muitas vezes tirado por mim, um bolinho com o xiripiti (bagaço).
Era um ritual tão giro, não era avô?
Lembras-te daquela vez que comeste atum com legumes e batatas e no fim descobrimos que já tinha passado a data de validade?
Hehehe… que risota que foi.
É pena a vida mudar essas coisas, não que seja para pior, mas nessa altura eu ainda estava no 7º ano da escola, a mãe trabalhava aqui perto e tudo se concentrava ai.
Aliás toda a minha infância foi em tua casa.
Entrava às 9 na escola, saía às 12h30 e só às 19 é que ia para casa.
E ainda via a “Rua Sésamo” antes de ir.
Só nas férias do verão é que não.
Sim íamos para o campismo.
Ainda fizemos umas jogatanas lá na praia, lembras-te?
Tu sempre impecável, ali seco e elegante.
E agora ainda estás, é verdade!

Depois do almoço eras tu a ler o jornal “Tal & Qual” e eu a ver o “Agora escolha”.
A ler é como quem diz… a tentar ler, porque a maior parte das vezes já tu “passavas pelas brasas” ainda nem tinha começado o “Bocas” ou o “Dartacão” e depois eu é que te ouvia a ressonar, não era!?
Claro, tinha que aumentar o volume para ouvir!
Mas ainda passeamos bastantes vezes juntos, não te lembras?
Íamos comprar pão, íamos ao baeta para cortar o cabelo, passear pelo jardim e ficar uma eternidade a descer o corrimão em pedra, que de tão polido que estava, deslizava que era uma beleza.
É verdade são tantas as boas recordações que ficávamos aqui horas a falar.
Pois eu sei tens que ir andando se não fica noite e olha que anda ai um frio desgraçado e ainda te constipas.
Esse casaco é quente ao menos?
…tens as mãos geladas, avô!!
Pronto, pronto …estava só a preocupar-me não te zangues comigo.
Então olha, quando chegares ao pé da Madrinha da-lhe um beijinho muito grande de todos nós. Não te esqueças!
Sim, eu sei que a Madrinha preocupa-se muito com a família mas diz-lhe na mesma que temos muitas saudades dela e que qualquer dia arrumamos aqui as “tralhas” e vamos até lá para ficarmos convosco.

Beijinhos grandes e toma conta de ti, meu Avô.

Até já.

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6 Comments

    1. Aprendi pois… demorou foi a fazer efeito 🙂 Disfarça-se o banal conhecimento com as emoções vividas. Beijinhos Professora!

  1. Gostaria que um dia, quando se fizesse noite e eu tivesse que ir andando, o meu neto escrevesse um texto tão bonito como este.
    Para um grande Avô, um grande Neto.
    Além disso tens uns desenhos lindos. Boa sorte para os teus projectos.

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