China

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Cheguei à China de comboio depois de dois intensos meses na Russia e Mongólia. A última paragem do transmongoliano era a desbocada estação de Pequim, que recebe milhões de viajantes por hora. Senti-me minúsculo naquela gigante confusão humana que, apressadamente, pisa o solo chinês. Tentei nortear-me no novo mundo exótico, mas a minha realidade estava longe de entender os olhos rasgados que cruzavam a minha viagem.

Á medida que a aventura foi decorrendo, percebi que a imagem de desenvolvimento e progresso são os enormes edifícios, museus e as estações de comboios. Fazia-me confusão percorrer cidades com dezenas de arranha céus completamente despovoados. Perguntava-me quem quererá viver num vigésimo andar, quando toda a vida foi feita em torno de um rés do chão. Que forma esta de preparar o futuro das cidades que parece esquecer o fundamental de um país: a sua cultura e educação.

 

Nas conversas que ia tendo com chineses, ninguém me soube dizer ao certo quantas províncias existem na China, quantos dialetos se falam ou quanto custa uma pequena garrafa de água. A resposta demorava a ser dada e dependia sempre daquela que veio a ser a minha forma de viver este país: a flexibilidade. Tudo se reduz à flexibilidade de cada um que, muitas vezes, podia ultrapassar a minha.

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Datong Buddha Caves / Pingyau

Mas como é que se percebe a flexibilidade de um país?

A minha percepção “Made in China” ganhou outro sentido quando entrei na profunda “China-Town”. Se há algo que aqui se faz em excelência, é a cópia de tudo o que existe a preço insuportável para este país. A flexibilidade de cada um faz o mercado girar consoante o poder de negociação individual. Vive-se um período consumista baseado em oportunidades, embriagado por telemóveis com câmaras prontas a disparar e a partilhar nas permitidas redes sociais. Mas tudo isto que estranhei no início e tarde se tornou num incomodo, a flexibilidade fez questão de mudar.

 

O picante, que não pedi e veio tirar todo o sabor à comida, segundo o empregado é impossível estar picante. Quando o proibido fumo de cigarro às quatro da manhã no dormitório do hostel, é sinal de maturidade e na vez de o apagar, oferece-me um cigarro. Quando a minha presença distraí a criança que faz as necessidades na rua enquanto todos se empurram para entrar no autocarro e, pelo meio, alguém grita de dedo esticado “estrangeiro!”. A curiosidade, que não tem limites de privacidade, permite folhear o meu caderno mesmo estando a desenhar. O silêncio, que tantas vezes desejei, foi interrompido por berrantes conversas ao telefone e que no final até deu para aprender algumas palavras em Chinês.

 

A China fez-me perceber que à medida que a flexibilidade ganhou espaço dentro de mim, todos estes pormenores tornaram-se insignificantes e a tolerância deixou-me ver outra realidade. Apesar de muitas contradições e perguntas persistirem, hoje este país é um lugar muito mais desejado e compreendido por mim graças aos detalhes de um olhar flexível.

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Sobre Nós

Olá! Somos Luis, apaixonado por Urban Sketching e Anisa, por fotografia. Conhecemo-nos em Bali, onde vivemos juntos e agora viajamos de bicicleta por todo o mundo. Gostamos de partilhar a estrada sobre 2 rodas ou de conversar sobre comida. Como não sabem qual é o melhor lugar para viver, andam a viver o mundo como se fosse a sua casa.




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3 Comments

  1. Já tínhamos saudades de uma crónica tua, Luís!
    E esta dá-nos uma visão muito interessante desse “gigante”!
    Depois de 2 anos (acabadinhos de fazer!!!) desde a tua partida, já quantos anos sentiste que “cresceste”…?
    Grande beijinho!
    Clara

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