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Sketch Stories

Suécia – Sweden

Helsingborg – 26 Junho 2012

Um pequena cidade que guarda uma parte da sua história nas ruas antigas e castelo. Quem se atreve a subir, é premiado com uma vista panorâmica de todo o centro e marina. Daí, apanhasse o barco para Copenhaga e em 20 minutos estão do outro lado do mar para mais um dia de trabalho. Também daí, segue um grande passeio marítimo com pequenas praias, despertando para uma caminhada descontraída. Mas Helsingborg é tudo isso e muito mais. O que vos vou contar agora é algo que não acontece todos os dias, mesmo que se ande disponível para que aconteça.

Desde que me apaixonei em Espanha que me modifiquei. Tornei-me mais resistente ao bater do coração e mais dedicado a seguir em frente. Não de olhos fechados, porque quero viver o que a vida me dá. Mas viver um amor à distância não é pêra doce. Não existe espaço para manter uma relação, porque não realidade, assim que sigo caminho, deixo a relação. Nesta vida que escolhi, vive-se o presente como ele é. O passado é uma historia que se conta a quem chega e o futuro é uma folha em branco.

Helsingborg foi um destino que estava destinado. Não pela cidade, mas porque levo no peito a vontade …

…acompanha o resto da história e sketches na revista Visão Vida e Viagens de Agosto!

 

Stockholm

Estocolmo- 2 Julho 2012

Aqui conheci o Tiago. Um português a fazer-se à vida cientifica na Suécia. Mochileiro de outros tempos, deu a volta ao mundo há uns tempos. Motivo de conversa não faltava, ainda para mais em português. Mas antes havia festa. Tinha feito 30 anos na quarta-feira e toca de convidar toda a malta da faculdade onde dá aulas e trabalha em laboratório. Juntou-se uma comunidade internacional para lhe cantar os parabéns e beber cerveja até mais não. O Tiago, é um tipo cinco estrelas, não fosse ele cá dos nossos. Recebe, quem vier por bem, de braços abertos. Coisa que está visivelmente patente na relação com os amigos, que já mal cabem na varanda. Deixou-me lá ficar em casa duas noites e ainda lhe esvaziei o frigorifico. Não só por isso, claro, mas contou no meio de muitas outras coisas. A noite ainda se alargou até às 4 da manhã. Já era pleno dia com o sol a palmo e meio a cima do horizonte. Não fosse o valente chamamento da cama, teria ido directo desenhar para a cidade. Mais vale faze-lo de cabeça descansada e já que tenho luz até às tantas, descanso agora.

Ainda não escrevi nada sobre a luz do dia, porque tenho alguma dificuldade em descrever fenómenos naturais. Até porque, são experiências únicas, indescritíveis e cada um sente à sua maneira. No entanto, cá vai. O corpo estranha a falta da noite. Não percebe que já é meia noite e tal, porque ainda é de dia. Não está habituado a ir para um bar de dia e sair de dia às 3 da manhã. Nunca fica noite cerrada. Existe sempre um azul claro no céu. Se estiver um dia nublado perde-se a noção das horas porque a luz é praticamente igual e constante durante todo o dia. Nunca se vêem as estrelas, mas a lua aparece. Nunca lá no alto. Se fizer uma rotação de 180º com o olhar encontro a quente estrela e o planeta sem luz, precisamente, em cada ponta. Paga-se caro se quisermos aproveitar esta luz para desenhar, pois o corpo, infelizmente diria, precisa de se fazer ao descanso. O período de pouca luz é entre a 1 e as 2 da manhã. Nos dias de semana e nas pequenas cidades, às 23h já não existem ninguém nas ruas e às 7 começa o movimento com o sol bem alto e quente. O corpo acumula cansaço, estranha tudo isto e a cara anda, todo o dia, de sorriso rasgado.

 

Mariefred

Mariefred – 3 Julho 2012

Calções, t-shirt e chinelos montados. Lá vou eu sketchar Mariefried. Está calor e estou completamente exposto ao sol. Aproveito para tirar o bronze à camionista na marina. «Olá, és pintor?!» pergunta-me um rapaz que explora um dos vários barcos de passeio. «Hei, não sou pintor, sou um sketcher em viagem. Porquê?» pergunto. «Se tiveres tempo e quiseres, dou-te 100 kronas se desenhares o meu barco com o castelo lá atras. Que dizes?!» Agradado com a ideia explico «este que estou a fazer não te posso vender, mas se tiver tempo e fizer, aviso-te já que não quero as 100 kronas para nada!» O rapaz olhou para mim e riu-se. «Então achas pouco, ou não vale dinheiro o teu trabalho?» «Nem uma coisa, nem outra, prefiro dar uma volta no teu barco, pois assim é mais justo. Tu queres um desenho eu quero uma experiência. Garanto-te que não há dinheiro que pague devidamente o que tu fazes e o que eu faço.» Regalou os olhos e ainda sem abrir a boca, a cabeça já acenava concordando com o que lhe disse. «É justo! Negocio fechado.»

Não se concretizou porque o meu tempo em Mariefred foi demasiado curto para, nem que seja, ter oferecido o desenho ao rapaz. No entanto deu para perceber que esta pequena cidade de veraneio conserva uma estação de comboios em actividade, para turistas é certo, mas que nos leva a viajar no tempo uns 200 anos atras. Vários bancos e pequenas praias de relva encostadas ao rio, são locais perfeitos para esticar a manta e, enquanto se petisca qualquer coisa, mostra-se o corpo desnudado ao sol sobre uma leve brisa marítima. Um local que surgiu por acaso no itinerário e recheou duas folhas do meu sketchbook.

 

Oslo

Oslo, Noruega – 5 Julho 2012

São 20h30 e a vontade de ir conhecer Oslo é mais que muita. É a primeira vez que estou na Noruega e todos me dizem que vou adorar. Estou num camping e para ir até ao centro da cidade são 45 minutos a pé, livra. Segue a opção B, comprar um bilhete de 24h para autocarro. Nove horas e aterro no coração de Oslo. Mesmo em frente fica-me a casa da ópera. O sol está apetitoso e por toda a rampa, que forma o tecto do pavilhão, estão pessoas sentadas. Privilegiados, como eu, deliciamo-nos ao sol, com musica de fundo de uma banda que actua junto à entrada. «Vida boa, caneco!»

Estou com alguma pressa, amanhã já vai estar de chuva e quero ver isto com as cores do sol. Lá vou eu para a artéria principal que liga a estão central dos comboios com o palácio. Movimento e muita gente, distraem-me constantemente, levo algum tempo até saber o que desenhar. Chego, sem saber muito bem, a um vista superior que apanha toda a marina de Oslo. Em pé e porque já são 22h pego no caderno e começo a sketchar. «Ainda há luz suficiente para desenhar» penso eu, sem realmente saber quanto tempo levo. Há momentos e desenhos que estou tão envolvido com a minha bolha, que tudo à volta pode estar a cair e nunca daria por nada. Este foi um deles. Estão três bancos de jardim repletos de locais que apreciam o mesmo que eu. Eu desenho, eles conversam. Volta e meia alguém chega mais perto e espreita, mas mantêm-se calados. Já me tinham dito que os noruegueses são os mais reservados da Escandinávia… serão mesmo?!

Os bancos vão-se enchendo com diferentes pessoas. Grupos de amigos, namorados completamente apaixonados, outros meramente formais, velhotes e outros que a minha bolha não me deixou ver. Tenho dificuldade em aplicar as cores. O castanho parece verde. O azul é claro ou é escuro? Percebo que é meia noite e, ainda que veja o por do sol perfeitamente, já começa a ser difícil descortinar com exactidão o que estou a fazer. Acabar o desenho quase de noite foi uma das melhores experiências em Oslo. Um das, porque a outra boa experiência foi ficar a saber que o último autocarro para o camping já tinha passado às 00H05.

Deparei-me com uma questão de sobrevivência.

Mochila às costas, pesada para variar porque sinto-me nu se não ando com os vários cadernos e materiais, chinelos e calções de banho. Mesmo que queira passar a noite na rua, vai ser duro.

Mas ainda tentei.

Porém, a partir da uma da manhã, Oslo, transforma-se. Tudo o que nos brilhava com o dourado do sol agora merece cautela.

O loiro e tímido cabelo das brancas norueguesas transformam-se em atrevidos ataques em praça pública por latinas que lançam beijos à procura de carentes clientes. Trabalham em grupos para não se sentirem abandonadas. De caminho, entre várias tentativas, escuto esta: «Hi handsome guy, you’re so pretty that I could be with you all night long!» «…É lá! Olha que assim ainda aceito» pensei eu.

Infelizmente para o meu ego, percebesse bem que o discurso está mais que formatado pela fluência do inglês. Aquela hora e com um problema de sobrevivência em mãos, percebi, melhor ainda, que em algum sítio iria passar a noite.
«Vivo aqui há anos e elas vão variando as esquinas, para não serem sempre as mesmas nos mesmos locais. Sempre que trabalho até mais tarde, perguntam-me se moro por aqui e se quero algo mais. É um bocado irritante…» confessa-me um tipo que ali passa à mesma hora, depois de ter percebido que fui alvo de uma delas.
Mas a coisa ainda iria ficar mais complicada.

Mais à frente estão os donos das latinas a vender mercadoria pesada. Grupos de latinos camuflados de cabedal, gorros e botifarras. Tinha ampliado vertiginosamente os níveis de sobrevivência deixando para segundo plano a questão de como é que vou para o camping aquela hora?!

Desvio-me de bêbados, latinos e latinas e entro numa rua vazia. Está tudo fechado e não se vê ninguém com ar saudável para pedir ajuda. Do mal o menos, como se costuma dizer «mais vale sozinho que mal acompanhado». O frio já me gelou os pés e a ideia de ter que fazer 1 hora a pé é um pesadelo. Passam taxis à minha frente como canoas com salva-vidas. Um taxi tirou-me do cenário vagabundo em que me encontrava. Custou-me largar 20 euros mas, principalmente, os meus pés agradeceram.

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2 Comments

  1. E assim vamos “viajando” em belíssima companhia…! Isto ainda vai dar uma extraordinária e única enciclopédia mundial!!!

    Obrigada, Luís, e continuação de boas viagens!

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